Democracia entre Tiranos
Pedro Neves Marques, Ana Manso, André Romão, Margarida Mendes
Jun 06 –
Jul 24, 2009
Press release English
A Galeria Pedro Cera tem o prazer de anunciar a exposição colectiva Democracia entre Tiranos.
Nas Histórias de Heródoto, aquando da 1ª conquista Persa sobre os territórios a Norte do Danúbio, este relata uma assembleia entre os líderes gregos sob o poderio de Dário, o Rei Persa, na qual estes, confrontados com a possibilidade de fuga aos seus antigos territórios, se reúnem para deliberação. Advertidos do perigo iminente da democracia nos territórios conquistados, outrora sob comando grego, sistema que prontamente os derrubaria, estes procedem ao voto em comum, deliberando por maioria a permanência na guerra e a sua subjugação ao movimento bélico.
Assim se enuncia o paradoxo que Heródoto narra, no qual a democracia é excluída por um sistema de voto, e onde cada dirigente, tirano em seu próprio território, assume um peso equitativo na deliberação. É no interior deste paradoxo, entre a vontade, o poderio próprio e a vida em comum, ou seja, entre a supremacia, a abdicação ou derrota em assembleia, que a presente exposição se impõe.
“Democracia entre Tiranos” propõe-se assim como conflito disfarçado de encontro, na convergência, poder-se-ia adiantar mesmo vórtice – cada qual eleva e destitui em simultâneo cada outro - entre autores. Uma assembleia não argumentativa, por exposta, mas antes relativizada entre evocações, contágios e sinapses.
Neste sentido, é para lá de uma unilateralidade explanatória e positivista aplicada às visões éticas e/ou estéticas de cada um dos artistas e das relações entre estes, que se constitui um espaço, polifónico, de consenso e dissensão – entre a autonomia e a construção partilhada do pensamento. Como a inefável relação entre o Eu e o Outro, o Id e o Ego, ressonância, diferença e reconhecimento, as peças expostas não apresentam nem representam, projectando-se antes para lá de uma verdade. Como tal, também os artistas aqui presentes não representam um determinado discurso ou tema unificador, posicionando-se antes na relação, contágio e promiscuidade de significados.
No seguimento da reciprocidade entre a Ética e a Estética que tem acompanhado a prática de André Romão, a ilusão de um Estado e a inevitabilidade da transição, o idealismo e desilusão de Hypérion, estruturam as suas intervenções na presente exposição, compostas por um vídeo e a envolvente instalação a este, bem como um poster e três desenhos.
Ana Manso, por seu lado, apresenta pintura, tramas geométricas e outros elementos, numa convocação de possibilidade na potência, da fé no fazer, do inominável e de uma religiosidade oculta, das quais irrompe um tribalismo latente e corrosivo.
A participação de Margarida Mendes tem a marca pontual da refracção e conversão do espectro de cor em som, assentando numa indivisibilidade da metafísica e do pensamento científico prévia a uma secularização desta última.
É, por último, neste sentido prismático que se apresenta Pedro N. Marques, numa disparidade de narrativas: entre a evocação do bom selvagem; do amuleto da ordem e da comunidade em forma de búzio do “Senhor das Moscas”; ou os desertos de sal do Djibouti (Rimbaud mais uma vez), activadas pela reprodução da pintura “Raparigas de Esparta provocando os rapazes” de Degas, e pelo filme “Democracia entre Tiranos”, o qual dá título à exposição.
Esta exposição é um projecto de Pedro Neves Marques.
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